Espirros, coceira, coriza e obstrução nasal recorrentes não devem ser encarados como algo normal; otorrinolaringologista explica os sinais que merecem investigação e os hábitos que podem agravar as crises
Você acorda com o nariz entupido, espirra várias vezes seguidas, sente aquela coceira incômoda e passa boa parte do dia limpando o nariz devido a coriza. No dia seguinte, tudo acontece novamente. E, quando isso vira rotina, é comum pensar: “Será que estou sempre gripado?”.
Nem sempre.
Segundo a otorrinolaringologista Dra. Gabriela Strafacci, sintomas recorrentes como espirros, coriza, coceira e obstrução nasal podem estar relacionados à rinite, uma inflamação da mucosa nasal que pode ter diferentes causas e apresentações
“Muitos pacientes chegam ao consultório depois de anos convivendo com os sintomas, porque se acostumaram a respirar mal, dormir de boca aberta ou ter crises frequentes de espirros. Mas obstrução nasal recorrente não deve ser simplesmente normalizada. É importante entender por que aquele nariz não está funcionando adequadamente”, explica a médica.
Rinite, gripe ou resfriado?
A confusão é frequente porque algumas manifestações podem ser semelhantes, especialmente no início dos sintomas. Existe, porém, uma diferença fundamental: rinite não é uma infecção viral.
Na rinite alérgica, o organismo apresenta uma resposta a determinados alérgenos, como ácaros, poeira, mofo e pelos de animais. Espirros em sequência, coceira nasal, coriza geralmente clara e obstrução são manifestações características
Gripe e resfriado, por outro lado, são infecções causadas por vírus. Além da congestão e da coriza, podem ocorrer dor de garganta, tosse e mal-estar. Na gripe, febre, dores no corpo e sintomas sistêmicos mais intensos são mais frequentes.
“Na rinite, chama atenção o padrão de repetição. O paciente pode perceber que os sintomas aparecem sempre ao limpar a casa, entrar em determinado ambiente, ter contato com poeira ou diante de mudanças de temperatura. Entender esse padrão é uma parte importante da investigação”, explica Dra. Gabriela.
A sinusite também pode cursar com obstrução e secreção nasal, mas apresenta características próprias. Por isso, especialmente diante de sintomas persistentes ou recorrentes, a avaliação médica é importante para diferenciar as possíveis causas.
Por que algumas pessoas têm sintomas praticamente o ano inteiro?
Nem toda rinite se comporta da mesma maneira.
Algumas pessoas apresentam crises bem delimitadas; outras convivem com sintomas durante grande parte do ano. Além dos alérgenos, fatores irritativos e ambientais — como fumaça, perfumes, produtos de limpeza, ar frio e mudanças bruscas de temperatura — podem desencadear ou agravar sintomas em indivíduos mais sensíveis.
Por isso, tratar apenas os momentos de crise nem sempre é suficiente.
“Uma pergunta que costumo fazer é: em quais situações seu nariz piora? Muitas vezes, o próprio paciente começa a reconhecer um padrão que antes passava despercebido. Essa informação ajuda tanto no diagnóstico quanto na definição das estratégias de controle”, afirma a otorrinolaringologista.
A investigação também é importante porque nem toda obstrução nasal recorrente é explicada apenas pela rinite. Alterações anatômicas e outras doenças nasais podem coexistir e precisam ser consideradas individualmente.
Respirar pela boca não deve virar o “normal”
Quando o nariz permanece obstruído, o organismo encontra outra maneira de respirar: pela boca.
O problema é quando isso deixa de acontecer apenas durante uma crise e passa a fazer parte da rotina.
Respiração oral durante o sono pode estar associada a ronco, boca seca ao despertar e pior qualidade do sono. Durante o dia, a sensação de nariz permanentemente bloqueado também pode interferir no conforto, na prática de exercícios e nas atividades cotidianas.
Nas crianças, esse sinal merece atenção especial.
“Uma criança que respira predominantemente pela boca, ronca ou tem um sono muito agitado precisa ser avaliada. Nem sempre a causa será rinite, e justamente por isso não devemos considerar a respiração oral simplesmente um hábito”, ressalta Dra. Gabriela.
Descongestionante nasal: quando o alívio rápido se transforma em problema
Poucas coisas trazem uma sensação de alívio tão imediata quanto alguns descongestionantes nasais quando o nariz está completamente bloqueado. E é justamente essa resposta rápida que pode favorecer o uso repetido.
Alguns descongestionantes vasoconstritores, quando utilizados de maneira frequente e prolongada, podem provocar congestão de rebote. O paciente aplica o produto, respira melhor por algum tempo e, quando o efeito passa, sente novamente a necessidade de utilizá-lo.
Pode se estabelecer, assim, um ciclo de uso cada vez mais frequente.
“Um erro comum é tratar todo nariz entupido com descongestionante. Ele pode aliviar o sintoma naquele momento, mas não necessariamente trata a causa da obstrução. Quando usado de forma inadequada e por tempo prolongado, pode inclusive contribuir para a rinite medicamentosa”, explica a médica.
Isso não significa que medicamentos administrados pelo nariz sejam ruins. Existem tratamentos nasais específicos e seguros para diferentes condições. A questão é saber qual medicamento utilizar, para qual diagnóstico e por quanto tempo.
Afinal, o ar-condicionado causa rinite?
Não necessariamente.
O aparelho de ar-condicionado não é, isoladamente, responsável por causar rinite. Entretanto, o ar frio, mudanças bruscas de temperatura e a presença de poeira ou outros irritantes no ambiente podem funcionar como gatilhos em pessoas predispostas.
É a situação clássica de sair de um ambiente quente e entrar em uma sala muito fria e, pouco depois, começar a espirrar ou sentir o nariz obstruir.
“Em vez de simplesmente dizer que o ar-condicionado faz mal, precisamos entender a sensibilidade de cada paciente e as condições daquele ambiente. Se existe uma relação repetida entre determinada exposição e o início dos sintomas, essa informação é relevante”, explica Dra. Gabriela.
A manutenção adequada dos aparelhos, a limpeza dos ambientes e evitar variações muito extremas de temperatura são medidas que podem ajudar algumas pessoas.
Quando procurar um otorrinolaringologista?
Um episódio isolado de congestão nasal não significa necessariamente que exista uma doença. A atenção deve aumentar quando os sintomas se tornam frequentes, persistentes ou começam a interferir na qualidade de vida.
Obstrução nasal recorrente, crises repetidas de espirros, coceira, alteração do olfato, respiração pela boca, ronco e necessidade frequente de descongestionantes são alguns sinais que justificam avaliação.
“O objetivo do tratamento não é apenas fazer o paciente parar de espirrar durante uma crise. Precisamos entender a causa dos sintomas, identificar os fatores desencadeantes e avaliar se existe alguma outra condição associada à obstrução nasal. Quando o diagnóstico é bem estabelecido, conseguimos individualizar o tratamento e melhorar de forma significativa a qualidade de vida”, conclui Dra. Gabriela Strafacci.
Sobre a Dra. Gabriela Strafacci
Dra. Gabriela Strafacci é médica otorrinolaringologista, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do nariz e das vias aéreas superiores, atendendo pacientes adultos e crianças em Indaiatuba (SP)
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