Aguarde, carregando...

Quarta-feira, 07 de Outubro 2026
Gabriel
Gabriel
Notícias Cultura

Psicanálise X IA: o que acontece quando a tecnologia é usada para acolhimento e terapia?

Psicanalista investiga os efeitos subjetivos e possíveis impactos sociais da relação cada vez mais próxima entre pessoas e plataformas de inteligência artificial

Psicanálise X IA: o que acontece quando a tecnologia é usada para acolhimento e terapia?
Imagem produzida po IA
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

No Brasil, 70% das pessoas utilizam ou já utilizaram em algum momento plataformas de inteligência artificial para lidar com questões de saúde mental e apoio emocional, segundo o Mind Health Report 2026. Esse fenômeno, observado também pela psicanalista Evelin Queiroz, dá origem aos questionamentos apresentados na obra Psicanálise x Inteligência Artificial - Saúde mental em tempos de algoritmos, publicada pela Matrix Editora. 

Mais do que discutir a tecnologia em si ou descredibilizar o uso para fins terapêuticos, a autora, com formações em Psicanálise e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, explora o que pode acontecer com o desenvolvimento da subjetividade quando a IA deixa de ser apenas ferramenta e passa a ocupar lugares associados aos vínculos humanos, como escuta, aconselhamento, validação, companhia emocional e reconhecimento. 

A facilidade de conversar com um sistema que está sempre disponível e responde rapidamente cria uma forma de interação diferente daquela encontrada nas relações humanas. É nesse ponto que Queiroz desloca a discussão da tecnologia para o sujeito: o que buscamos quando escolhemos conversar com algo que não nos rejeita, não nos decepciona e, em geral, não nos confronta? O que essa tecnologia simboliza em nós? E o que acontece com o sujeito quando o outro deixa de frustrar? 

“(...) há uma diferença radical entre prever caminhos de navegação e sustentar a complexidade da psique. A mente humana não opera apenas por comandos explícitos. Ela é atravessada por história, afeto, trauma, fantasia, contexto social, memória corporal. Na clínica, o analista recebe milhares de inputs em poucos minutos: o tom de voz, a hesitação, o gesto, o silêncio, a repetição, o lapso. Escuta-se o que é dito e o que escapa. A máquina recebe apenas aquilo que é digitado. Em termos estruturais, é uma diferença abissal. Quase um contra mil.” Psicanálise X Inteligência Artificial, p. 8

Reunindo conhecimentos da própria bagagem nos universos da tecnologia e psicanálise, a especialista discorre sobre as pessoas que investem a afetividade em sistemas que se adaptam às suas demandas e oferecem respostas com pouca resistência. Teorias de pensadores como Sigmund Freud, Carl Jung, Zygmunt Bauman e Winnicott ajudam a elaborar as mudanças e conceitos investigados a cada capítulo. Ao longo das páginas, o leitor avançará junto à psicanalista em reflexões sobre transferência digital, idealização do outro artificial, validação e ilusão de reconhecimento, medo da frustração e fusão narcísica, além dos possíveis impactos sociais dessa nova tendência.

O uso da IA para fins terapêuticos é relacionado também à dificuldade contemporânea de lidar com a diferença e traz à tona questões éticas. Na perspectiva apresentada, o outro humano não é inteiramente previsível nem ajustável: possui desejos próprios, limites, silêncios e formas diferentes de pensar. A inteligência artificial, por sua vez, pode adaptar sua linguagem às demandas de quem interage com ela. Seria, então, a preferência por esse tipo de vínculo, mais previsível e controlável, capaz de enfraquecer a capacidade de sustentar relações marcadas pela dúvida, pela frustração e pelo desencontro?

Buscar terapia na IA pode ser uma maneira de buscar alívio sem tensão, reconhecimento sem risco. Mas, ainda que possa oferecer respostas, organizar informações e até simular escuta, na perspectiva psicanalítica, a ferramenta permite uma espécie de “fuga organizada” e não ocupa o lugar de um outro que possui desejo próprio, se diferencia e pode contrariar.

Uma leitura provocativa para profissionais da área e todos os curiosos pelo tema, Psicanálise x Inteligência Artificial aproxima processo terapêutico e tecnologia. Propondo observar as mudanças recentes sem idealização ou alarmismo, o conteúdo abre espaço para investigar o que cada escolha revela sobre as necessidades, os medos e os desejos de quem está do outro lado da tela.

Sobre a autora

Evelin Queiroz é psicanalista clínica, escritora e palestrante, natural de Salto, no interior de São Paulo, onde mantém seu consultório. Antes de se dedicar à clínica psicanalítica, construiu uma trajetória na área de tecnologia. Formada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, atuou no mercado por alguns anos, experiência que despertou seu interesse pela influência das inovações tecnológicas sobre a maneira de pensar, sentir, relacionar-se e construir a identidade.


Redes sociais da autora: Instagram @psi.evelinqueiroz

Ficha técnica

Título: Psicanálise x Inteligência Artificial - Saúde mental em tempos de algoritmos
Autoria: Evelin Queiroz
Editora: Matrix Editora
ISBN: 978-65-5616-704-6
Páginas: 144
Preço: R$52,00
Onde encontrar: Amazon, Mercado Livre, Matrix Editora e livrarias de todo o país

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Veja também

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR