Você abriu o ChatGPT no trabalho hoje. Talvez tenha redigido um e-mail mais rápido, resumido uma reunião, organizado uma planilha. Depois fechou a aba com aquela sensação incômoda: será que eu devia estar fazendo isso?
A dúvida é real e é compartilhada por profissionais ao redor do mundo. Mas a especialista em mercado de trabalho Anna Licarião vai direto ao ponto: a pergunta errada está sendo feita. “A questão não é se é correto usar IA. É o que está definido como 'correto' nessa empresa e se alguém se deu ao trabalho de comunicar isso."
O uso de inteligência artificial no ambiente corporativo já deixou de ser exceção. De relatórios a apresentações, passando por análises e atendimento, a tecnologia vem sendo incorporada por profissionais de diferentes áreas, muitas vezes sem um posicionamento claro das empresas.
Para a especialista, a maior parte das organizações ainda opera num vácuo normativo: esperam que o trabalhador use as ferramentas, mas não criam políticas claras, não oferecem treinamento e, quando algo dá errado, responsabilizam o funcionário.
O Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025 do Fórum Econômico Mundial projeta que a automação afetará 22% dos empregos até 2030, com 170 milhões de novas funções criadas e 92 milhões eliminadas, resultando em saldo líquido positivo de 78 milhões de postos.
A responsabilidade não é só do trabalhador
A ideia de que cada profissional deve se reinventar constantemente ganha força, mas especialistas alertam para os limites desse discurso.
“Colocar toda a responsabilidade no indivíduo ignora o papel das empresas na formação e atualização das equipes. Inovação também é um compromisso institucional”, destaca Anna Licarião.
Ela reforça que organizações que investem em capacitação tendem a ter equipes mais preparadas e menos resistentes às mudanças. “As respostas não estão prontas, gestores e colaboradores podem descobrir juntos, com tentativas, erros e acertos”.
Na prática, a especialista identifica três perfis de empresa no Brasil hoje: as que proíbem o uso de IA por medo de vazamento de dados, as que ignoram o tema e fingem que não existe, e as que incentivam, mas sem estrutura.
"O funcionário fica no meio disso tudo sem bússola. Usa escondido, erra, apanha. Ou não usa, fica para trás. Nenhum dos dois cenários é justo."
Redução de vagas, substituição de postos de trabalho
Por trás do debate ético, há uma camada mais dura e que muitos preferem não nomear: a IA já está substituindo postos de trabalho, e isso não é ficção científica.
Funções repetitivas em atendimento ao cliente, triagem de currículos, geração de relatórios, suporte técnico de nível básico e moderação de conteúdo já estão sendo automatizadas em larga escala. Não amanhã, agora.
Anna Licarião não minimiza o impacto. "Seria desonesto dizer que não vai haver perdas. Vai. A automação já chegou para algumas profissões e não vai voltar atrás." Mas ela distingue dois tipos de risco: o de quem tem uma função altamente automatizável e não faz nada, e o de quem usa a IA para expandir sua capacidade de entrega.
"O trabalhador que aprende a trabalhar com IA vira uma pessoa que entrega o equivalente a três. O que não aprende concorre com essa pessoa e perde." Para a especialista, o maior perigo não é a máquina. É a passividade diante dela.
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