A Casa Branca anunciou nesta quinta-feira (17) que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de 79 anos, foi diagnosticado com Insuficiência Venosa Crônica (IVC) após apresentar inchaço nos tornozelos e manchas nas mãos. Segundo comunicado oficial, trata-se de uma condição benigna e comum entre pessoas com mais de 70 anos, e não foram encontrados sinais de trombose venosa profunda nem de doença arterial.
Embora o quadro clínico tenha sido descrito como leve, o caso reacende o debate sobre um tema pouco discutido: a saúde venosa masculina durante o envelhecimento. A insuficiência venosa, muitas vezes lembrada em contextos femininos, também é altamente prevalente entre os homens — especialmente após os 60 anos.
Segundo o médico de família e comunidade Dr. George Mantese, mestre em Epidemiologia e doutorando em Educação e Saúde pela USP, a subnotificação é preocupante. “A insuficiência venosa crônica é frequentemente subdiagnosticada em homens. Muitos ainda acreditam que varizes, edema ou sensação de peso nas pernas são problemas estéticos femininos. Esse preconceito atrasa o diagnóstico e prejudica a qualidade de vida”, explica.
A IVC é caracterizada pela dificuldade no retorno do sangue venoso das pernas para o coração, devido ao mau funcionamento das válvulas venosas. Essa falha leva ao acúmulo de sangue (estase), aumento da pressão nas veias e uma série de sintomas: sensação de peso, dor, inchaço (edema), escurecimento da pele e, nos casos mais graves, formação de úlceras venosas.
Estudos epidemiológicos mostram que a condição afeta mais da metade dos homens acima dos 65 anos, mesmo quando assintomáticos. A obesidade, o sedentarismo e o envelhecimento são fatores de risco bem estabelecidos. O acúmulo de gordura abdominal aumenta a pressão venosa e favorece a inflamação crônica, enquanto a falta de atividade física compromete a bomba muscular da panturrilha, que é essencial para o retorno venoso.
Além disso, estratégias não medicamentosas como o uso regular de meias de compressão graduada podem reduzir o edema em até 60% dos casos, embora ainda sejam pouco utilizadas por homens. A prática de exercícios específicos para panturrilha também se mostra eficaz, podendo melhorar o retorno venoso em até 40%. Já uma alimentação rica em flavonoides — como frutas vermelhas, uva roxa e castanhas — contribui para a redução da inflamação vascular.
Um fator menos discutido, mas que merece atenção crescente, é o papel dos hormônios sexuais. A testosterona, cuja produção declina naturalmente com a idade, tem relação indireta com a saúde vascular. Segundo Mantese, a queda da testosterona está associada ao aumento de gordura visceral, resistência à insulina e um estado inflamatório — todos fatores que interferem na função endotelial e no retorno venoso.
“Estudos mostram que níveis baixos de testosterona total e livre em homens mais velhos estão associados à piora da saúde vascular e aumento da rigidez arterial. Embora a reposição hormonal deva ser indicada com critério, o rastreamento de hipogonadismo deve ser parte do cuidado integral com o envelhecimento masculino”, afirma o médico.
De fato, uma revisão publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostrou associação entre hipogonadismo e síndrome metabólica, além de aumento do risco cardiovascular. Outro estudo reforçou que a reposição de testosterona, quando bem indicada, não aumenta significativamente o risco de trombose venosa profunda.
No entanto, é importante lembrar que a decisão pela terapia hormonal deve ser individualizada, considerando riscos e benefícios. “Homens com histórico de câncer de próstata, apneia obstrutiva do sono ou trombofilias devem passar por avaliação rigorosa antes de iniciar qualquer reposição hormonal”, complementa Mantese.
“A prevenção ativa, com controle do peso, avaliação hormonal, alimentação balanceada, uso de meias de compressão e atividade física regular, são aliados fundamentais para manter a saúde vascular ao longo do tempo”, conclui.
O caso de Trump, embora considerado leve, serve como lembrete para que homens, principalmente a partir dos 50 anos, não ignorem sinais de alteração circulatória. Dor nas pernas ao final do dia, inchaços recorrentes e escurecimento da pele não devem ser normalizados. O envelhecimento saudável passa, também, por uma circulação eficiente — e o cuidado preventivo ainda é a melhor ferramenta para garantir qualidade de vida.
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